Já bem cedito ela tá de pé Aquece água pra passar o café Bota mais lenha no fogão Prepara a massa pra fazer o pão E tem chimia e tem goiabada Tem ambrosia e tem marmelada Tanta doçura que nem cabe em si Cabelo branco de tanta geada E da labuta tem mãos calejadas Em cada ruga uma história Todas guardadas dentro da memória Algumas coisas ela até esquece Só não esquece de fazer a prece Pede por todos em sua oração Minha véia, minha vó Ela é tudo numa só Esposa, amiga, nona e bisa Filha, mãe e pai Mulher gaúcha é a minha vó Tem tantos netos que sangue lhe deu E outros tantos que ela acolheu Na sua casa não falta lugar Tem sempre espaço pra mais um chegar É só botar mais água no feijão Puxar uma manta e mais um colchão E cancelar aquele chá das seis O que sagrado é aquela novela Do tal ator que é o favorito dela Que ela assiste enquanto faz tricô Um cachecol pra aquecer o vô Um leite morno e já tá na cama Que amanhã, bem cedo, o galo chama Mulher gaúcha é a minha vó Aqui se benze e batiza Sem precisar de batinas Clarão de Sol nas retinas E a fé na alma é o que cura Umbigo na terra escura Talho em tesoura benzida Antes no ventre guarida Agora habita a mangueira Na crença da vó campeira Rumo e sentido pra vida