Senhor delegado, Eu sou um assassino, Entrego-me à prisão, Cumprindo o meu destino. Estou arrependido, De praticar o crime, Deixa que lhe descrevo, Senhor, como perdi-me. Um dia apareceu, Deitada à minha porta, Uma mulher doente, Faminta, quase morta. Tratei-a com carinho, Tornou-se tão bonita, Foi minha companheira, E hoje é minha desdita. A ingrata me fugiu, Não soube mais vencer, Tornei-me até ladrão, E dei para beber. E quantas, quantas noites, Ao me apertar o sono, Dormia nas sarjetas, Tal qual um cão sem dono. E ela vinha em sonho, Buscar-me com carícia, Quando era despertado, Nas garras da polícia. Farto de sofrer, Fui procurar o amigo, Como último recurso, Fui lhe pedir abrigo. Negou-me, disse ainda, Jamais o conheci, Virou-me, deu-me as costas, Quando uma voz ouvi. Reconheci ser dela, Na casa à força entrei, Matei o falso amigo, E a mulher que amei. Estou arrependido, Não terei mais conforto, E desde aquele instante, Eu sinto que estou morto.