Me embala o som de sua mitocôndria antiga No meu reverso tem o verso dos seus dias Faço poesia pelo tanto que te quero Viva Outono afora, vi reinar sua primavera Panos torcidos que lavou pra não ser véu Das suas mãos sei que saíram pra mim asas E um céu A minha vó também foi mulher e menina Ela plantou e desenhou bordado e cor Dos seus sabores ficaram minhas palavras E meu som Raiz antiga lança forte pelo seio De olhar o mundo sem ter medo de partir Sei de tua fera alcançada pelas veias Desde o parir Eu sou a mãe da mãe da mãe da minha avó Eu sou o ponto que daqui dela chegou Que nem fogueira, nem promessa, nem inquisição Silenciou Eu sou um pouco da vontade anciã Eu sou semente que a terra braba viu Que avó da mãe da mãe da mãe da minha avó Recoloriu Um vaso fundo de querer beber da flor Que no suspiro mora aqui Com uma aldeia que inteira habita e canta Dentro de mim