Sequência de Sonetos 1 Templo A minha igreja tem portas imensas Grandes colunas de altos telhados E seus altares são ornamentados Para acolher as mais diversas crenças. Ali se travam discussões intensas E é comum ter credos confrontados Os que lá entram são estimulados A questionar antigas diferenças. Nela se prega a paz de consciência Também se exalta a boa convivência Sem precisar de papos enfadonhos. Sua existência é transcendental E seu mais nobre diferencial É ser o templo pra todos os sonhos. A Arte Conquanto evoque todo seu talento Vez que o poeta não vê a saída. Tenta exteriorizar seu pensamento E a arte não se aflora em sua lida. "Tarda-lhe a idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento, Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento!." Agora o impasse! Renova a energia E voltando ao estado de estesia Conclui, assim, o primeiro terceto. Analisa os poemas de outras lavras E destrinça os sentidos das palavras Pra chegar ao final deste soneto. A Idéia Eu me encontro em estado de poeta Assim penso e me ocorre a ousadia De tentar uma estranha parceria, Donde vem essa idéia que decreta? "Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas Que, em desintegrações maravilhosas Delibera, e depois, quer e executa." É idéia... desenvolve, não quieta Incorpora um quarteto da seleta Desse denso universo augustiano. Ficam claras as águas nebulosas E por força de atrações misteriosas Sou parceiro do vate paraibano. A Inspiração Deste Mundo perdi a sintonia Vindo um surto de grande inspiração Que aflorou o poder da criação E ao verso deu toda autonomia. Entrei no mágico mundo da poesia, Naquele estado de transmutação E só sob o comando da emoção, Do imponderável mais a fantasia Minha mente foi pega de surpresa O meu verso fluiu com inteireza E poetei segundo por segundo. De repente, senti grave problema: A inspiração findou, com o poema, E voltei bruscamente a este Mundo. A Luz Penso, logo... questiono por que penso E como o cérebro faz esses arranjos Que o nosso vate Augusto dos Anjos Poetizou de modo tão intenso: "A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa." Por que será que há condensações Que geram gênios de grandes invenções E outras tantas, a mediocridade?. Saber da luz - que é, por que e quando - Sempre pensando, pensando e pensando... Assim caminha a Humanidade. A Visão "Quando o homem, resgatado da cegueira, Vê Deus num simples grão de argila errante, Nasce, pra ele, neste mesmo instante A mineralogia derradeira!". Conclui que tudo de um só Deus emana, Seja na Terra ou na tropopausa, Pois não existe efeito sem ter causa, É axioma da ciência humana. O homem, neste instante, assimila Que Deus é origem do grão de argila Causa primária de tudo que existe. Vê em Deus a suprema inteligência - A chamada divina providência - E então, só na Verdade assim persiste. O Amor Em soneto, Camões foi convincente: "Amor é um fogo que arde sem se ver É um não querer mais que bem querer É ferida que dói, e não se sente". "Falas de amor, e eu ouço tudo e calo O amor na Humanidade é uma mentira. É. E é por isto que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo". Se só de amor sagrado foi um crente Me alio neste tema recorrente Ao poetar do vate português Que teve essa inspiração de estalo E usou soneto para bem focá-lo Lá nos idos do século dezesseis. O Soneto Fitei a fim o branco do papel Para ali escrever mais um soneto Mas eu já chego ao fim deste quarteto Sem que o lápis roçasse em meu anel. Botei rima e com ela sou fiel Pois não acho este estilo obsoleto. Finalizo esta estrofe e me arremeto Indo em frente com ânsia de tropel. Imagino um soneto assim faceto, Concebido no subconsciente, Ao passar para o último terceto. Quando aponto o meu lápis, finalmente, Já não é mais um simples esqueleto: O soneto está pronto em minha mente!