Jayme Caetano Braun

Trovador Negro

Jayme Caetano Braun


Negro de sorriso claro, 
Como sinuelo de pampa, 
Que sintetizas na estampa 
Longínquas reminiscências; 
Negro que lembras dolências 
De alegrias e tristezas 
Que andaram nas correntezas 
Dos rios de muitas querências. 

Essa cordeona que abraças 
Com ciumenta intimidade, 
Traduz - na sonoridade, 
Quando teus dedos passeiam, 
Madrugadas que clareiam, 
Campos pelechando em flor, 
Chinocas pedindo amor 
E potros que corcoveiam. 

E quando a cordeona espichas 
Aberta - como prá um pialo, 
E o verso sai - de a cavalo, 
Sobre a cadência da nota, 
Tua mirada remota 
Se perde - coxilha acima, 
Como quem busca uma rima 
Sem saber de onde ela brota. 

Tu sim - és poeta - e o mundo, 
Prá ti - se torna pequeno. 
E nem mil poetas - moreno, 
Expoentes de Academia, 
Campereando - noite e dia, 
O vocabulário gasto 
Podem dar cheiro de pasto 
Como tu dás à poesia. 

Negro de sorriso aberto 
Como clarão de alvorada, 
Abre essa gaita aporreada, 
E canta - a mais não poder. 
Canta negro - até morrer, 
Com força de mil gargantas, 
Pois cantando como cantas 
Ninguém te iguala em saber.