Empanturrada Hoje acordei e engoli Engoli mais um copo de lágrimas Derramadas por uma alma infeliz Matabichei Um pouco dos gritos Do vizinho, cujo cortei Relações e afetos Pois A inveja lhe possuiu Por de vidro ser o meu teto E ele plantou mais um feto Que terá de viver nesse gueto Que crescerá sem respeito Talvez, o vento Sopre a maldade que o meu vizinho tem no peito Só mesmo o vento Pra me tirar dessa digestão Na hora do almoço comi do pão Cheio de bichos que chamo corrupção E vi Mayombe, que me estendeu a mão Ela vivia pouco distante do meu quarteirão Eu olhei nos seus olhos dirigidos ao chão E a fome veio de novo, "é o quê então" ? Não consegui me conter Tive que voltar a comer Senti o sabor da tristeza De uma pobre criança Que sem pressa Já não sonha, só bebe E às vezes come E às vezes não bebe Ah! A nossa realidade me pôs repleta! O meu estômago já não aguenta Se eu andar mais uns metros vomito Nessas ruas não falta alimento E minha teimosia venceu Dei uns trinta passos mais Uau! Uma senhora morreu E a família acha que a mobília não cabe no banco de trás Então o filho se apercebeu Que alugar um HiAce seria eficaz O taxista, já agora Hebreu Transportou toda a riqueza que nem era demais No velório só ficou o cão e eu Mas eu estava de passagem e nada mais Pensei em voltar pra casa Lá não há tanta comida Mas ah! Existe o Fala Angola De tantas histórias vou engordar Mas não tenho por onde ir Se eu for estarei a fugir Mas passei numa esquina Onde uma simples menina Estava sendo violada Definitivamente estou empanturrada! Nem pôr o dedo na garganta Conseguirá tirar toda essa comida já pronta Se esses cozinheiros não morrerem Eu vou explodir Porque cada vez que o meu povo grita, ou chora Só me resta engolir